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OMS

(Resposta de Ana Prieto, brasileira residente na China que escolheu permanecer no epicentro da pandemia, em quarentena há 2 meses, às interpretações da postagem de Rodrigo da Silva no twitter)

Respondendo às threads que culpabilizam a China pela pandemia.

Não responderei aos 25 tópicos, mas vou expor a minha opinião, de acordo com a minha vivência, como uma estrangeira morando aqui em meio a uma epidemia que se tornou pandemia.

Esclarecendo sobre o que eu NÃO tenho conhecimento:

– SARS, eu não morava aqui, nem pesquisei a respeito;

– Vigilância Sanitária, não sei como funciona, mas os supermercados e restaurantes que conheço não diferem muito dos que conheci no Brasil, porém moro na capital, numa região onde vivem muitos estrangeiros;

– Teorias e afins sobre criação de vírus.

Eu não gostaria de fazer comparações, mas vejo como necessário para melhor interpretação, considerando que se trata de um país fechado, o que ao invés de gerar curiosidade, muitas vezes gera preconceito.

Pois bem, vamos ao que eu tenho um pouco de conhecimento para compartilhar.

Sobre animais exóticos na alimentação: quem consome animais exóticos é uma pequena parcela da população e, veja bem, turistas. Muitas vezes este consumo esta relacionado com algum benefício para a saúde de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa.  Isto acontece em alguns regiões do Brasil também. No interior de SP, minha região, a comida exótica é uma farofa feita com Iça, um tipo de formiga.

Sobre as redes sociais e imprensa internacional: a maioria são restritas e não acredito que isto faça diferença pra eles, já que eles possuem as próprias redes sociais e jornais em chinês (a maior parte da população não fala outro idioma). Todavia, é possível acessar estas redes restritas com um programa, que em hipótese alguma funciona durante grandes feriados ou eventos, como encontro de grandes líderes. Este programa funcionou normalmente nos últimos 3 meses, o que imagino não aconteceria se quisessem inibir alguma informação.

Sobre o médico que alertou sobre o vírus: fake news é crime, ele assinou um termo que não falaria mais sobre o assunto porque o que estava acontecendo eram especulações em grupos de mensagem, quando ainda não se tinha noção do que isto se tornaria (até hoje as descobertas estão acontecendo). Ainda assim, mesmo doente, quando forneceu a entrevista ao jornal internacional disse que retornaria ao trabalho se melhorasse. Ele não foi o único médico a ficar doente e falecer, porém imagino que a morte dele não fosse desejo de ninguém, já que ele poderia se tornar um mártir.

Sobre omitir informações: a OMS esteve aqui desde o começo. Existe um site em chinês, atualizado diariamente pelos médicos, onde é possível acompanhar a quantidade de pessoas infectadas, a quantidade de pessoas com suspeita, a quantidade de pessoas se recuperando e quantidade de pessoas que faleceram por localização (Província-Distrito). Neste mesmo site eram postadas as medidas preventivas que mudavam conforme cada nova descoberta sobre o vírus, estas medidas eram traduzidas ou enviadas em formato de banner para os grupos de apoio.

Sobre priorizar a economia: o que vi foi o inverso. Vi a segunda maior economia do mundo parar para salvar seu povo, fábricas de carros e iphones produzindo máscaras constantemente, hospitais sendo construidos com a ajuda de voluntários em menos de uma semana, centro de convenções e ginásios sendo transformados em hospitais temporários, médicos do país inteiro indo para a cidade mais afetada cumprir sua missão, pessoas comuns querendo fazer doações para ajudar, somente serviços essenciais em funcionamento. E mesmo quando a situação começou a mostrar melhoras, somente alguns setores retornaram ao funcionamento após cumprir uma lista de exigências que garantissem a segurança das pessoas, sejam elas funcionários ou clientes.

Sobre espalhar pelo mundo: quando a epidemia começou, o governo e a OMS se reuniram diversas vezes pra decidir as medidas de contenção, que foram tomadas muito rápido, como o lockdown da cidade onde tudo começou e o cancelamento de alguns meios de transporte. Porém muitos estrangeiros e alguns chineses decidiram deixar o país. Para deixar o país era necessário checar  a temperatura e preencher um termo onde se atestava o estado de saúde.

Sobre os índices de referência da doença: estes índices se referem a uma população que tem a qualidade de vida como cultura milenar. Independentemente de classe social ou idade, eles se alimentam saudavelmente e fazem execícios regularmente. Eles possuem o consumo de proteína diário idêntico ao Brasil, porém a principal fonte é a proteína vegetal. Eles possuem uma variedade incrível de legumes e verduras. Muito provavelmente estes índices irão alterar conforme as particularidades (idade, acesso a saneamento básico, situação de saúde) e medidas preventivas de cada país, e isto não inválida os índices daqui.

Entre os brasileiros que ficaram, o sentimento é o mesmo: segurança nas medidas que foram tomadas. Tivemos as informações e o suporte necessários para nos mantermos seguros. Não houve tratamento diferenciado, fosse estrangeiro ou chinês, patrão ou empregado, todos seguiam as mesmas regras. Como exemplo, eu tenho seguro saúde, porém se eu apresentasse sintomas compatíveis com a doença deveria ir até uma clínica de febre pré-designada e não necessariamente ao hospital internacional.

Penso que os outros paísem agiram, em pleno mundo globalizado, como se o vírus não fosse chegar. Não tomaram as medidas preventivas (e coincidentemente tiveram os exatos dois meses que alegam que a China nada fez), mesmo tendo as informações necessárias (a OMS poderia ter sido mais incisiva e reconhece isto, assim como reconhece as ações que foram feitas aqui como exemplares) e agora querem transferir sua própria irresponsabilidade criticando um modelo político que é diferente, mas funciona.

Para finalizar, doença não escolhe nacionalidade. O que aconteceu aqui foi uma fatalidade que poderia ter acontecido em países como o nosso, em que uma parcela considerável da população sequer tem acesso a saneamento básico.

O único desconhecido que devemos temer agora é esta doença e por pouco tempo se nos unirmos.